Falar é prata, silêncio é ouro

Acordei no meio da noite. Tudo fora vertigem, não o sonho mas o tempo em que compartilhamos nossas vidas. Na verdade eu prometi a mim mesmo assim como não te interessavas ler minhas coisas que não escreveria nada sobre nós. Ninguém iria ficar sabendo dessa história. Porque algumas histórias tem que ser guardadas a sete chaves, correto? Se possível confiscado até de Deus; deixar tudo isso gravado apenas no rec* do universo. Iria guardar somente a mim mas ninguém, nem amigos íntimos, nem futuras namoradas teriam privilégio. Estou aqui descumprindo o trato, sei que não se deve cometer essa injúria com nossa história, mas afinal já faz tempo… De ti tenho pouco, mas pouco também é alguma coisa. Possuo também o livro assim falou zaratustra que ofereceste quando separamos, nele contém a dedicatória de sua amiga que lembro bem, dizia: temos muitas diferenças em comum. Foi uma ótima leitura para o fim daquela viagem. Hoje não o carrego comigo, porque todos livros que li pesam, dá mais jeito guardar dentro de mim. Acho que você ficaria orgulhosa.

Levantei como uma canção de Michael Nyman – o artista que compõem a trilha sonora do teu filme favorito. Porque para mim era tudo muito real, verossímil demais você nas minhas pálpebras, beijando-as e agradecendo por aquelas madrugadas de possessões sibaritistas. Bons tempos, um dos mais felizes acho, depois sorri de imediato afinal fazia já algum tempo que não recordava você. O desastre da ausência é isso, é esquecer do rosto, dos gestos, do gosto, do sabor das orelhas, os olhares e até mesmo do sentimento. Estava sozinho, não quis voltar a dormir, nem tentei voltar para o sonho que me despertou. Fiquei a saudar aquilo que eu queria salvar. Então levantei e propus a relatar: na verdade fora tudo muito estranho nosso encontro, naquela cidade que nem mesmo lembro mais o nome, você usava trajes europeus e comporta-se como uma estrangeira, fazia frio é verdade. Eu era um escritor tentando fazer meu nome, à procura por editoras. Bem depois só muito mais tarde percebi que tudo aquilo foi especial, especial não, porque nossa vida em si já é algo especial, mas sagrado, tudo cada detalhe fora sagrado. Você achava interessante o fato deu hospedar em hotéis dizia que pessoas interessantes são aquelas de hotéis, albergues. Que nunca devem faltar histórias para elas. O fato é que não dormíamos, chegávamos a ficar três dias acordados; logo pelo amanhecer você se sentia a vontade ia ao teu quarto abria as caixas pegava teus diários e ficava ali horas no meu colo lendo sem parar: lia trechos escritos em Frakfurt, Berna, Assunção, Wellington, Huambo, Bali, Rio de Janeiro… Chorará até as lágrimas secar, eu passava a mão entre seus cabelos. Coisas ali tinham sido escrita quinze anos atrás, ficava eu pensando se tu revelavará aquilo tudo somente para impressionar-me “Ele vai precisar disso um dia“. Você achava que aquilo poderia ser um fumo inspiração e de fato era. Isso contenta, e me sentia único dividindo aquilo.

Você ocupava o banheiro e não suportava o silêncio da noite, implorava para que eu recitasse coisas de Neruda, Rimbaud, Lorca. Fazia questão depois de muita insistência carregar minha mochila pesada, aquilo tinha cheiro de vanguarda. Talvez você procurava em mim algo do passado, como se eu representasse uma nostalgia, afinal teu signo é de câncer. Talvez eu fosse tudo o que você já fora.

Na verdade eu não entendo porque raios a gente tem que partir sempre. Depois é muito difícil voltar e fazer a mesma rota, te encontrar no mesmo lugar, no mesmo vestido, o mesmo valor, com o mesmo espírito. Talvez a fuga seja porquê se você tem algo o tempo todo não dá para distinguir se aquilo é bom ou ruim, é preciso descartar para ver se aquilo te trás ganhos ou perdas.

Talvez ela fugiu, talvez ela voltasse, talvez ela se escondeu do mundo, talvez ela fosse até a mim, talvez esteja aprendendo uma nova língua, talvez ela esteja me procurando em alguma livraria “Será que ele publicou algum livro? Será que ele fez o nome dele? Qual é mesmo o nome dele?”. Talvez eu fiz um filho nela, talvez tenha nascido nosso pequeno Hércules. Talvez. Talvez!

– rec*: tecla para gravar. 

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Sobre Gustavo Santiago Guimaraes

Gustavo Santiago Guimarães é poeta. Autor de Sol-te no caminho.
Esta entrada foi publicada em Prosas. ligação permanente.

Uma resposta a Falar é prata, silêncio é ouro

  1. Jaina Lunkes diz:

    Não me pergunte como foi que eu descobri o teu site, eu também não sei, mas gostei muito =)

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