Desobediência Civil de Henry David Thoreau

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Hoje começa uma coluna sobre literatura no blog, e para começar logo com os dois pés; vou falar do livro Desobediência Civil de Thoreau. Preparem-se porque vamos abordar um clássico que está entre os maiores discursos revolucionários de todos os tempos. O livro é daqueles como gosto de chamar: uma bomba na mão da pessoa “errada”. É um livro guia de todos os que estão consciente das injustiças contra as classes oprimidas. Desobediência Civil influenciou Mahatma Ghandi que aplicou a virtude deste livro na Independência da Índia. Martin Luther King leu e releu e aplicou a estratégia de não-violência. Tolstoi também aprendeu com Thoreau a desobedecer.

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Estamos nos E U A, 1848. No tempo em que o progresso dos Estados Unidos dependia do trabalho escravo. A escravatura era lei e legal perante a constituição, a democracia estava dependente da expansão da escravatura. Havia guerra contra o México (o país estava sendo invadido). Os impostos na época era boa parte destinado a guerra. Thoreau escreve seu livro aqui, diz ele que todo americano honesto deve ser contra a constituição, contra a escravatura, contra a guerra no México. A situação aqui é mesmo trágica, não é de se admirar que a escrita de Thoreau em Desobediência Civil seja enérgica. Thoreau desafia o governo, a igreja, as maiorias, o exército. Despreza a lei e o voto e recusa pagar impostos. Ele reconhece bem os mecanismo do sistema e ataca-o com vigor, alegando que o Estado tem como seu objetivo essencial manter viva leis iníquas para cumprir a necessidade dum sistema econômico capitalista.

Thoreau começa o livro com o lema: “O melhor governo é o que menos governa”. Depois diz que esse princípio leva a outro: “O melhor governo é o que não governa”. “Quando os homens estiverem preparados terão este governo. O governo não deve ser mais que um expediente (…) o governo mais expediente é o que deixa os governados entregues a si próprios”. O autor relembra: “O governo, que não é mais do que um meio escolhido pelo povo para executar sua vontade, acaba por ser objeto de abusos e perversões, antes do povo poder atuar através dele”. Durante a leitura deste livro confesso que não fiquei surpreso com o conteúdo, porque minhas idéias são partidárias com a visão de Thereau. O que mais surpreende nesta leitura, é a escrita sucinta do autor. Thoreau consegue dizer tudo, em precisas 50 páginas.

Quanto ao exército, o autor chama os militares de cadáveres e duvida se são de fato homens ou fortalezas e arsenais ambulantes. “Eles estão a serviço do governo da maioria e é ele próprio escravo da lei, marchando a caminho da guerra cometendo um ato condenável. São máquinas, não usam a inteligência ou o senso moral”. Thoreau diz que um homem sábio não pode deixar-se ser usado como barro, mas deve ser humano, ser coerente, que é dever não dar apoio a iniquidade, que toda ação, objetivo ou contemplação deve ser avaliado para que não prejudique outro homem, impedindo assim o outro também de poder ter suas contemplações.

02gandhi1Segundo Thoreau a lei nunca tornou um homem mais justo. “É por causa do respeito pela lei que até alguns bem-intencionados se tornam todos os dias agentes da injustiça”. O autor acha que devemos ser primeiro homens e só depois súbditos. Ele não aprova o cultivo da lei por isso, e diz que a única obrigação que tem é fazer o que acha justo. Nota-se que sua revolta é consequência dum desejo de harmonia. Nem por um momento ele reconhece o governo, e diz que se associar a um governo tirano que aprova a escravatura é cair na desonra. O grito de Thoreau é límpido, honesto, lúcido. Sua linguagem é carregada de sarcasmos,  desafios e reflexões até o fim do livro.

Thoreau questiona se não é possível outra democracia, incentiva a revolução pacífica. Em um trecho o autor indaga: “As leis injustas existem. Deveremos nós contentar-nos com obedecer ou devemos antes fazer tudo para emendarmos? Deveremos cumpri-las até conseguirmos emendá-las ou deveremos transgredi-las sem mais?” Mais a frente o autor diz que se a injustiça por sua natureza num mecanismo governamental exigir que nos tornemos agentes da injustiça, a lei deve ser transgredida, a desobediência civil deve ser feita, é preciso desobedecer.

outro trecho do livro:

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“A ação com base no princípio da percepção e do exercício da justiça transforma as coisas e as relações; é um ato essencialmente revolucionário e não se compadece com o que está em vigor. Traz divisão não só aos Estados e às igrejas, mas até às próprias famílias. Mais do que isso, divide o indivíduo, separa nele o diabólico do divino”. 

Thoreau é ávido pela liberdade, seu desejo explicito é ser um homem livre; e no seu discernimento ele reconhece que essa tal liberdade é fora do Estado. Qual é a solução revolucionária que Thoreau dá as pessoas honestas? Que deixem de pagar impostos e se for o caso deixem-se meter na cadeia: “Com um governo que prende alguém injustamente, o lugar do homem justo é na prisão (…) A prisão é, num Estado esclavagista, é o único lugar onde um homem justo pode morar com honra” Parece muito radical isso? Talvez, talvez, mas realmente dá o que pensar. E esta é a função de Thoreau e o seu livro. Thoreau compreende que a desobediência a lei fará do homem um ser isolado e com desprezo a propriedade privada: “Não vale a pena acumular propriedades para depois ficar sem elas. Há que alugar ou ocupar terras algures, fazer uma pequena colheita e consumi-la imediatamente. Temos de viver sozinhos, só conosco, dependermos apenas de nós, estar prontos para começar de novo, não termos muito de nosso”.

Este livro foi escrito de fato logo após que o autor sair da prisão, no livro o autor relata também sua experiência na prisão. Thoreau sabe o que faz, e diz que cada um deve fazer como pode e quando pode, aquilo que o couber fazer. Desabafa dizendo que é duro o preço da desobediência e sabe que isso acarretara consequências, mas que o  própria moléstia, o próprio culpado por ela é o governo. Thoreau prefere incorrer no castigo, por desobedecer ao Estado, custa menos que obedecer-lhe. Obedecer ao Estado no entendimento do autor é o mesmo que dizer que ele de nada valha. Thoreau só quer um estado mais livre, de boa vizinhança e camaradagem mas para isso é preciso que o próprio seja esclarecido, e reconheça que o indivíduo tem poder superior e indepedente (da qual deriva todo o poder e soberania que o Estado detém). Será porque é tão difícil até nos tempos de hoje, mesmo com outros problemas mas não menos importantes, que um Estado não possa agir finalmente com inteira justiça e tratar cada indivíduo com o respeito preciso? E a constituição, porque ela nunca é renovada ano após ano?

Li este livro duas vezes em duas semanas, a primeira foi uma leitura rápida; a segunda risquei trechos e fiz anotações. O livro é recheado de conselhos do autor, que ao meu ver tem uma virtude profunda. É o segundo livro que leio de H. D. Thoreau, o primeiro foi Walden ou a vida nos bosques que relata de forma autobiográfica a experiencia do autor, que vai morar a margem dum lago, constrói sua própria casa e cultiva seu próprio alimento sem o uso do dinheiro, (Walden foi escrito logo após Desobediência Civil). Este livro foi e ainda é uma influência para vários líderes em prol dos direitos humanos. Dois grandes exemplos é M. L. King e Gandhi que são considerados duas das personalidades mais importantes do século XX. Clássicos são assim, o tempo passa, mas cada dia ficam mais atuais.

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Sobre Gustavo Santiago Guimaraes

Gustavo Santiago Guimarães é poeta. Autor de Sol-te no caminho.
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Uma resposta a Desobediência Civil de Henry David Thoreau

  1. Adriana Santos diz:

    Simplesmente maravilhoso, adorei o texto, a dinâmica e a simplicidade nas palavras.
    Boa, muito boa!

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