Pegando carona com a morte

Quero partilhar uma causalidade que acorreu-me em 2009, quando ainda morava no Brasil. Nesta época viajava de carona pelos estados de Goiás, Minas, Rio e São Paulo. Com uma mochila nas costas, em constante movimento, vendia e recitava poemas em bares para sustentar minha aventura.
Partilhei esse ocorrido para pouquíssimas pessoas. A poesia me salvou a vida no meio duma cartarse! Falo isso no valor denotativo. Foi visceral esse dia, e minha vida nunca mais pôde ser a mesma após essa transitoriedade.

Estava em São Lourenço (sul de Minas) já há três semanas. E as duas caronas que iria pegar neste dia, uma delas no caminhão da Coca-cola me faria chegar no Estado do Rio de Janeiro. Fiz amizades com pessoas muito especiais em São Lourenço, foram dias bons. Muitas coisas aconteceram para mim naquela cidade. Quando senti vontade de mergulhar novamente na estrada meus amigos me deixaram na BR 460. Em um ótimo tempo, esperei por uma carona em apenas 15 minutos. Havia passado apenas 3 carros nestes minutos. Já não me lembro do nome do senhor, nem do seu rosto, mas o que aconteceria ali dentro daquele carro em 1 hora, seria transcendental, o suficiente para eu nunca mais esquecer.
Para começar a história o indivíduo estava embriagado, eu poderia sair do carro, mas não conseguiria uma carona fácil, era preciso encarar o risco, haviam poucos carros passando naquela estrada. Começamos logo a falar de muitas coisas, foi o que me manteve a confiança, aquele senhor estava com a voz abatida, eu via muita angústia nos seus olhos. Ele perguntou o porquê estava viajando de carona, disse-lhe que estava viajando o Brasil, vendendo poemas em bares e nas ruas. Que estava tentando curtir a vida. Ele sorriu.
Quando o senhor começou a falar sobre ele, havia muita emoção e com álcool ali misturado só podia dar em novela. Fui falando com ele, queria entender a causa da sua angústia, foi aí que ele contou-me sobre seu filho. Que o rapaz havia falecido já há dois anos, num acidente na mesma estrada que passávamos, o carro que estávamos era do filho falecido e que também era a primeira vez que ele passava por aquela estrada após o acidente mortal. Ele disse-me que iria se matar no próximo carro que aparecesse mas ai viu um rapaz pedindo carona na estrada e resolveu parar. Pronto, conseguem imaginar na merda que pode acontecer aqui, e na gravidade do sofrimento deste homem, eu estava dentro desse filme e deveria manter a calma, era a única coisa que me alertava. O incrível que pareça, o natural, é que deveria eu sentir medo, e pedir para descer no exato momento que vi aquele homem alterado, mas criei ali uma compaixão por aquela história e por aquele homem. Depois compreendi que o mais certo era não deixar ele só.
Disse-me também que seu filho foi campeão nacional de judô e que já tinha também representado o Brasil e ganhado campeonatos internacionais. Eu ouvia-o com atenção. O que se pode dizer para alguém que sofre uma perda irreversível? Eu sinto muito parece quase nada na imparcialidade da vida, nada poderia reparar sua dor. Depois disse-me que o filho se comunicava por cartas psicografadas. Nas cartas o médium dizia que ele estava muito descansado, que estava bem, que o lugar para onde ele foi era muito bom. Eu só contava os Km da próxima cidade, quando de repente, sem avisar-me o senhor entra com o carro na via oposta que seguíamos para se lançar contra o próximo carro que aparecesse. Dizia-me que essa vida já não valia mais viver, que ele queria ver o filho dele. Comecei a dizer que isso não se resolveria assim, que se ele nos matássemos iria causar mais sofrimento para outras pessoas, coloquei a mão no volante e puxei o carro para a nossa via. Contrariado o senhor puxou novamente o carro para a via oposta e disse-me que não aguentava mais sofrer a perda do seu filho, que precisava de se matar. Foi aí que eu lhe disse – se eu recitar-te um poema bonito você muda essa ideia – puxei novamente o carro para a via e comecei a recitar o poema:

Gosto de ti quando se cala, porque assim o tempo congela
E deste tempo faço teu templo de elogios.
Sussurrando nuances, nos teus olhos contemplo brilho.
Tuas mãos esvanecem mundo a fora que procuram
Minha voz para o teu banho noturno.
E o porquê dessas folhas sem decência se suicidarem
Para fazer um tapete confortável para os teus pés acariciar?
Mistério de mundo, necessidade do mundo querer te amar!

Gosto de ti até quando o presente nos ausenta
Porque assim sinto mais a tua falta!
E desta linha que nos separa eu peço a ti para ter calma,
Pois a distância só existe para quem não confia.
E assim com naturalidade manteremos a calma.

Basta ser breve quando te sinto nos meus versos
Versos que criam pernas que escorrem planetas a fora
E compreendo as construções divinas
E entendo o meu descontentamento celestial.

Eu gosto de ti porque eu gosto de ti.
E a amo porque a amo
Essas coisas a gente não explica
Simplesmente canta, profere, põe para fora.

O senhor quando ouviu o poema fez uma pausa depois disse: – é o meu filho a falar comigo. – Disse-lhe: – não é o seu filho senhor, é eu que estou falando consigo agora, e o poema foi eu que escrevi, você tem que enfrentar essa sua dor, é a sua tarefa, te matar é apenas uma fuga. Ele desatou a chorar, após isso o homem consternado disse que iria deixar-me na próxima cidade e agradeceu-me por cruzar seu caminho. Após vinte minutos eu estava finalmente fora do carro junto a ele. Ele me abraçou e pediu permissão para dar uma palmada nas minhas costas como fazia com o filho, disse-me: rapaz eu te desejo toda a sorte do mundo, aquilo que sempre desejei para o meu filho eu te desejo, sucesso. Despedi dele, ele entrou no bar e pediu uma cerveja. Eu, dentro de duas horas estaria no caminhão da Coca-cola admirando o bioma do Estado do Rio de Janeiro.

A escrita pôde me libertar desta história hoje, está dito, por palavras, finalmente! A vida é foda, e a morte é sempre próxima, mas não há erro que o caminho é sempre em frente, estagnar nunca. Essa história me fez e ainda faz pensar em muitas coisas.

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Sobre Gustavo Santiago Guimaraes

Gustavo Santiago Guimarães é poeta. Autor de Sol-te no caminho.
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